Eu só peço a Deus,
um pouco de malandragem.
- Olha por onde anda, garota! – Uma voz aguda, enjoada, dotada de veneno.
Cobras são animais interessantes. Dizem por aí que elas tentaram Adão e Eva a comer a maçã proibida, e como castigo, foram amaldiçoadas a rastejarem pelo resto de suas vidas. Para a infelicidade de Bia, há uma cobra rastejando pelos corredores do colégio Stª Maria. Ela é uma espécie exótica, com cabelo vermelho ardente e olhos verde claro. E naquela manhã ensolarada de uma sexta-feira, as duas se esbarraram no corredor central.
- Por que eu estou aqui perdendo tempo com você? Vamos sair logo daqui, meninas. – Berrou.
- Para espalhar veneno pelos outros corredores…- Bia sussurrou para sí, enquanto se ajoelhava para pegar os livros que cairam ao chão. O sussurro saiu um pouco mais alto do que o esperado.
- Veneno é? – Uma voz divertida e ao mesmo tempo desinteressada ecoou nos ouvidos de Bia. E logo havia alguém ajoelhado, juntando os livros caídos -em consequência do esbarro- de história e geografia. Ao ouvir aquela voz, percebeu que lhe era familiar, e como impulso virou o rosto em direção a ela. Paralisou.
- Cuide melhor dos seus livros, eles andam caindo muito ultimamente. – A voz esperou uma resposta, mas não a teve. Insistiu.
- Você está bem? Eu sou seu vizinho, aquele que juntou seus livros um dias desses. Lembra? – Sorriu e esperou, mais uma vez, uma resposta.
- Pedro! – Bia falou. Quer dizer, berrou. Ou será que gritou?
Ele riu um pouco.
- Ainda bem que você lembra, caso o contrário, seria constrangedor. – Sorriu torto. – Posso saber o seu nome também? É justo.
Bia conseguiu sair um pouco do transe, mas continuou fitando os olhos azuis, timidamente. Ela sorriu com simpatia e se levantou com os livros na mão.
- Me chamo Bia. Quer dizer, Bi…Bianca. Prazer!