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Temperatura high

Eu nunca mais vou respirar se você não me notar
Eu posso até morrer de fome se você não me amar.

Domingo, 9:19 a.m
O sol entrava forte no quarto de Bia. Parece que aquela velha e amarela cortina, que seguia a menina a anos, precisava de uns reparos. Ou talvez ela devesse ser trocada definitivamente. Mas isso não vem ao caso, ou será que vem? Bom, o fato é que a luz do sol se chocou com os olhos sonolentos e logo os fez se abrir. A cabeça balançou em sinal de tontura, enquanto Bia se levantava da cama. Os pés seguiram aquela mesma rotina matinal. Banheiro, quarto, guarda-roupa, escada, cozinha. As mãos resolveram variar o cardápio, hoje fariam um belo sanduiche para o café da manhã. Abriram a porta da dispensa, onde são guardados os mantimentos, e a partir dai foi a vez do cérebro fazer sua parte. ” Deixa eu lembrar… Primeiro ele pegou um saco com pães bola, hamburguers… O que mais? Vamos Bia, racionaliza. Ah, alface, claro… Queijo, presunto e tomate. Deve ser isso, ok, vai dar certo. Não deve ser tão difícil fazer um sanduiche.”
10:10 a.m
- Puxa vida. Eu sou um desastre mesmo. Olha esse sanduiche, não chega nem perto do que o Pedro fez. – Bia choramingava ao pé da mesa, fitando sua obra prima culinária. Ela não falava sozinha na verdade, havia um gato em sua casa. Uma bola de pelos branca feito neve, que Bia chamava carinhosamente de Flocos. Ele gostava de pular à mesa e deitar, todo encolhido, sobre ela.
- Quer um pedaço, Flocos? – Bia aproximou um pouco do sanduiche no fucinho do gato, e ele fez um barulho esquisito como o de um espirro.
- Foi mal, bebê. Já sei que minha vocação não será no ramo culinário. – Suspirou.
A campainha da casa soou. Bia teve um pouco de susto comparado a Flocos que pulou e “gritou” histericamente. Ela caminhou devagar até a porta, notando que o dia estava muito quente, e colocou um dos olhos no olho mágico. Mesmo com a deformação causada pelo olho mágico, aquela pessoa do outro lado da porta continuava perfeita para a menina. Era Pedro e seu par de olhos azuis. Bia então abriu a porta, curiosa e surpresa, e sorriu.
- Que calor ein? – Pedro sorria, enquanto Flocos esfregava os pêlos brancos entre as pernas do menino.
- Oh, é verdade… Flocos, sai dai! – Bia fez uma cara de reprovação para o gato.
- Não se preocupe, eu gosto de gatos. Flocos é um nome legal. Pelo menos melhor que o do meu, ele se chamava Preto. – Uma risada sai sem querer da boca de Bia e ela cora. – Eu sei, eu sei. Que nome patético, né?
- Não nã-o, quer dizer, é um nome até legal. – Outra risada escapa, dessa vez de Pedro.
Os olhos azuis se encontram com os castanhos negros. Silêncio.
- Entre! A casa está um pouco bagunçada mas espero que você não ligue… – Ele sorriu e entrou.
- Que cheiro é esse? – Falou enquanto seguia o cheiro até chegar a cozinha.
- Acho que vem do meu café da manhã. – Bia fez uma careta ao olhar a tentativa frustada de um sanduiche.
Um barulho familiar ecoa. Era a barriga de Bia, sinal de que ela estava com fome. Corou novamente. Pedro se virou para ela e abriu um sorriso. Não um sorriso de deboche, mas um sorriso amigável.
- Farei uma coisa especial para você.


Sussurro

Hoje eu acordei querendo encrenca, escrevi teu nome no ar
Bati três vezes na madeira, senti você me chamar.


15:36
- Você acha que me engana, garota? – Julia sussurrava no ouvido de Bia, com o cuidado de que Pedro, que estava caçando os ingredientes do sanduiche, não ouvisse.
- Do que você está falando? – Bia temia aquele olhar ameaçador que a fitava.
- Não se finja de boba, querida. É claro que você esta a fim do meu primo, não dava para ser mais discreta? Mas o problema maior não é esse. Pense comigo. Ele te chamou para vir junto conosco e fez questão que você experimentasse o super sanduiche. Você acha que ele age assim com todo mundo? O que você tem de especial me diz, porque eu não notei nada mesmo.
Aquilo tudo chocou a menina. Não pelo fato de Julia achar que Bia é uma qualquer que não tem nada em especial. Isso realmente não a surpreende. Mas o que Julia estava insinuando na verdade, foi o que provocou a reação. Poderia haver algum interesse da parte de Pedro? Ou Paris é um lugar onde habitam pessoas malucas e com disturbios mentais?
- Do que vocês tanto falam ein? – Resmunga Pedro ao se aproximar, com um pacote de pão bola e hamburguers.
- Nada amor, eu só estava comentando com a Bianca de como Paris está chata ultimamente. Não é verdade, querida? – Um olhar daqueles, ninguém se atreve a contraiar.
- Ãhn, é isso mesmo – Bia cruzou os dedos em esperança de que Pedro não notasse o tom de voz falso que acabara de sair de sua boca.
- Bom…Mão na massa! – Pedro abriu um sorriso perfeito.
Bia paralisou com o azul e com o olhar ameaçador.

16:05
-
Que cheirinho bom!
- Espere até você experimentar o sanduiche, Bianca – Julia falou um pouco fingida.
- Já que você esta como convidada hoje, tera direito a dar a primeira mordida. Que tal? – Com aquele olhar azul piscina era difícil resistir. Mesmo estando de dieta.
- Hmmmmmm, isso está delicioso! De verdade. – Bia falava enquanto engolia os ultimos vestígios da mordida.
- Oh, obrigada Bia. Pelo menos em uma coisa eu sou bom. Em fazer sanduiches. Não me parece algo grandioso, né? – Ele gargalhou e ficou olhando para ela.
- Bianca querida, você não tinha um compromisso às 16:30? Lembro que você me disse enquanto conversávamos naquela hora – Julia abre um sorriso torto e maldoso.
- Compromisso?
- Sim, não esta lembrada? – Olhar ameaçador.
- Oh, er… é mesmo. Prometi a minha mãe que a ajudaria em algumas coisas. Enfim, muito obrigada pelo sanduiche! Estava realmente bom – Bia pegou seu livro de dragões na mesa e encarou Julia – Foi bom te conhecer… – olhou para o azul e sorriu – Até mais.

Dias sim, dias não,
eu vou sobrevivendo sem um arranhão.

“Um livro de utopia, a sombra de uma árvore e uma barra de cereal sabor brigadeiro. Esse é o meu hobby, acho”, pensou Bia, enquanto respondia um questionário bobo de volta às aulas, na sexta feira antes do toque de saída.
Sábado 15:10
O cereal já estava na metade e o clímax se transformara num desfecho emocionante, enquanto os galhos balançavam no ritmo do vento. Foi quando Bia desviou o olhar das páginas de seu livro, e o viu. Estava vestido para uma caminhada, com um Ipod da apple -azul- em uma mão e apenas um fone no ouvido direito.
” Ai meu Deus, é ele! AI MEU DEUS, ele está muito lindo com essa camisa ragata branca!! O quê? Ele está olhando pra mim?! Disfarça o olhar, Bia. Disfarça… Ufa, acho que ele passou direto enquanto eu olhava desesperadamene para a grama.”
- Está lendo o quê? – O coração de Bia quase pulou pela boca quando ela ouviu aquela voz. Em consequência do susto, o livro levou um pequeno tombo e caiu na grama.
- Mais um livro é vítima dos maus tratos de Bianca – Pedro fez uma expressão pensativa – Talvez o problema seja eu. Não é irônico que sempre que eu chego perto de você, seus livros caem? Me desculpe – Sorriu mostrando todos os dentes perfeitos. O coração de Bia voltou ao lugar, mas sua cabeça girava.
- Nã..não faz mal. E, bom, ontem a culpa foi daquela – nojenta, foi o que Bia quis falar – …da Lídia. – Sorriu seco. – Dragões de Éter.
- Como?
- O livro. Estou lendo dragões de éter.
- Nunca ouvi falar. É bom?
- Pra quem gosta de coisas utópicas, é um ótimo livro.
Pedro fitou Bia por alguns segundos. Ela não desviou o olhar. Não conseguia.
- PEEEEEEDROOO! Até que enfim eu te achei garoto – Uma voz desconhecida berrou, de longe.
- Hãa – Pedro olhou confuso em direção a voz – Ju? O que você esta fazendo aqui?
- Sua mãe não te contou, priminho? Minhas aulas ainda não começaram, então mamãe resolveu me mandar para cá. Para o Brasil! Não é maravilhoso? Aliás, Paris já estava ficando monótona. Já mencionei que estou morrendo de saudades? Vem cá amorzinho! – Julia se aproximou, puxou Pedro e o abraçou. Agarrou, na verdade. Bia ficou olhando pasma.
- E quem é a sua amiguinha? Não é a sua namorada né? – Ela lançou um olhar ameaçador para Bia.
Pedro sorriu.
- Ah não. Essa é Bianca. Nós estudamos no mesmo colégio e somos vizinhos. Não é uma coincidência? – Ele sorriu de novo olhando para a menina encostada na árvore.
- Interessante. Er – Olhar ameaçador – Vamos logo para casa Pê, você vai ter que me fazer um daqueles sanduiches especiais. Estou com saudades disso também.
Sem esperar uma confirmação de Pedro, Julia o puxou com pressa, e o levou em direção a casa ao lado.

Entre cobras e veneno

Eu só peço a Deus,
um pouco de malandragem.

- Olha por onde anda, garota! – Uma voz aguda, enjoada, dotada de veneno.
Cobras são animais interessantes. Dizem por aí que elas tentaram Adão e Eva a comer a maçã proibida, e como castigo, foram amaldiçoadas a rastejarem pelo resto de suas vidas. Para a infelicidade de Bia, há uma cobra rastejando pelos corredores do colégio Santa Maria. Ela é uma espécie exótica, com cabelo vermelho ardente e olhos verde claro. E naquela manhã ensolarada de uma sexta-feira, as duas se esbarraram no corredor central.
- Por que eu estou aqui perdendo tempo com você? Vamos sair logo daqui, meninas. – Berrou.
- Para espalhar veneno pelos outros corredores…- Bia sussurrou para sí, enquanto se ajoelhava para pegar os livros que cairam ao chão. O sussurro saiu um pouco mais alto do que o esperado.
- Veneno é? – Uma voz divertida e ao mesmo tempo desinteressada ecoou nos ouvidos de Bia. E logo havia alguém ajoelhado, juntando os livros caídos -em consequência do esbarro- de história e geografia. Ao ouvir aquela voz, percebeu que lhe era familiar, e como impulso virou o rosto em direção a ela. Paralisou.
- Cuide melhor dos seus livros, eles andam caindo muito ultimamente. – A voz esperou uma resposta, mas não a teve. Insistiu.
- Você está bem? Eu sou seu vizinho, aquele que juntou seus livros um dias desses. Lembra? – Sorriu e esperou, mais uma vez, uma resposta.
- Pedro! – Bia falou. Quer dizer, berrou. Ou será que gritou?
Ele riu um pouco.
- Ainda bem que você lembra, caso o contrário, seria constrangedor. – Sorriu torto. – Posso saber o seu nome também? É justo.
Bia conseguiu sair um pouco do transe, mas continuou fitando os olhos azuis, timidamente. Ela sorriu com simpatia e se levantou com os livros na mão.
- Me chamo Bia. Quer dizer, Bi…Bianca. Prazer!

Adeus cinza.

Vida louca vida, vida breve.
Já que eu não posso te levar, quero que você me leve.

Incolor, transparente, indiferente. Era assim que Bia se sentia quando pisava naquele gramado ridiculamente verde e artificial, repleto de olhares tortos e sem graça. Cinzas. Ela odiara seu colégio desde o início do ano -era novo para ela-, não pelo seu método de ensino e nem pelos professores -ela até gostava deles-, mas pelas pessoas que ali estudavam. Todos cheios de sí, eles tinham um péssimo hábito de julgar as pessoas. Não vamos generalizar, haviam pessoas legais também, que dividiam seu tempo e interesses com Bia. E o lanche ás vezes. Mas falar de pessoas boas não tem a menor graça, já que são as ruins que tem histórias, digamos divertidas, para contar.
28 de outubro de 2008. Bia guardou essa data na cabeça, pois este foi um dia especial para ela. O dia em que o cinza se tornou azul. Um azul piscina surrealmente real. Quase ninguém notou aquele garoto novo saindo de um Corolla modelo 2007 preto, com seus cabelos castanhos escuro ao vento, e uma expressão sem emoção. Mas Bia reconheceu de longe aquela pessoa, afinal, como ela poderia esquecer aqueles olhos que lhe perseguiam em seus sonhos? Eis a questão.
A expressão sem emoção não saiu do rosto de Pedro naquela manhã.
Bia passou a ver o mundo mais azul, e deixou o cinza sem graça para trás.


Cedo demais?

Pode seguir a tua estrela, o teu brinquedo de ’star’.
Fantasiando um segredo, no ponto aonde quer chegar.

Cinco e quarenta. É a hora em que Bia sempre se levanta com um susto, causado pelo seu despertador barulhento e cinza. Mas dessa vez foi diferente. Ela acordou sorridente e assim ficou por alguns minutos, presa em seus pensamentos, em seu sonho maravilhoso, no azul piscina. “É cedo demais”, sua consciência sussurrava, mas ela simplesmente ignorava.
“Como eu posso me esquivar disso? Há um modo de enganar o amor?”, foi o que Bia pensou por horas na noite passada antes de notar um ponto brilhante no céu. Era uma estrela cadente. “Uma surpresa do destino”, assim pensou a menina. Fez um pedido, cruzou os dedos e se virou em direção a cama.
Seis em ponto: banho.
Seis e quinze: café da manhã ( suco de laranja e torradas).
Seis e meia: a caminho do carro.
Seis e trinta e dois: Pelo vidro do carro, ela vê o azul.

Eu queria ter uma bomba, um flit paralisante qualquer
pra poder me livrar do prático efeito, das tuas frases feitas, das tuas noites perfeitas. Perfeitas

Naquela manhã de abril, Bianca ergueu a cabeça como num reflexo, e seus olhos se afogaram naquele azul piscina que a fitava. Ela ainda não sabia seu nome, mas logo descobriria que era Pedro, o garoto novo da casa ao lado. Depois de alguns segundos, os olhos lembraram de piscar, e foi assim que Bia notou aquela figura ao chão juntando os livros caídos de biologia e física. Ele se levantou, sorriu e disse “Oi, como vai? Eu sou Pedro, acabei de me mudar para a casa ao lado”.
Esse foi um dos momentos em que Bia não desejou ter um flit paralisante qualquer. Na verdade, talvez, ela preferisse algo que só paralisasse. Assim, os olhos dela poderiam nadar eternamente no azul piscina.